Filhote,
De vez em quando você fica atacado. Acorda mal-humorado e passa o dia dando "patadas" nas pessoas, sabe? Trata mal seu pai, faz manha para se arrumar, tenta bater na professora, pede para comprar tudo o que vê pela frente como se fosse o filho mais mimado do mundo e logo depois esquece. Não se contenta com nada, não faz o favor nem de pegar um brinquedo no chão quando a gente pede, não como direito... até que eu me pergunto: “Nossa Senhora, o que aconteceu contigo hoje?”.
Sempre procuro uma razão. Mas nem tudo isso é para chamar nossa atenção, nem tudo tem sempre explicação.
E de vez em quando (menos do que eu deveria), decido que já chega, não pode ser tão folgado, tão mimado, tão mal-educado. E lá vem a bronca, o discurso, o castigo... Até que uma hora eu decido que você não está merecendo nem desenho nem história para dormir. Dou uma bronca "daquelas" e te mando para cama.
A paciência se esgotou. Mas aí você chora, pede desculpa, “por favor…por favor"… Você faz assim porque acha que chorando consegue tudo. E não tem mãe que não titubeie, o coração amolece de ver aquela carinha triste. Afinal, é só uma história, não custa nada…
Racionalmente as mães sabem que seus filhos são mesmo excelentes atores, e que está rolando uma manipulação básica. Você, por exemplo, sabe direitinho como conseguir quase tudo da sua mãe...
Só que eu me lembro que já é tarde, estou cansada, tenho mil outras coisas para fazer depois que você dormir (arrumar a casa, arrumar a cozinha, separar a roupa...). Não tem cabimento nenhum eu me sentir culpada por educar. Você mereceu o castigo, eu não fui injusta e você estaca impossível desde que acordou, ainda que agora esteja com carinha sedutora tentando me ganhar.
Controlo meus instintos e te mando dormir! (em nome da educação, das boas maneiras, dos limites e da minha sanidade). E chorando, triste comigo, você dorme.
A casa fica finalmente em silêncio... quieta demais. Passo no seu quarto, faço um carinho, beijo sua bochecha, afago mais um pouquinho, beijo de novo... sussuro “eu te amo, filhote”.
Saio do quarto com a história que ia contar entalada na garganta. Ando pela casa remoendo o dia. Escovo os dentes e esqueço de todas as tarefas ainda por fazer. Lamento o tempo “perdido” com broncas, quando tudo o que a gente queria era se divertir, passear, sorrir…
Mas crianças desobedecem, nos testam, e você fica se perguntando quantas broncas mais será obrigado a dar para que nossos pequenos entendam que a vida não é esse deleite ininterrupto de desejos preenchidos e sonhos realizados. Digo para mim mesma que, caso você não a ensine isso hoje, a vida tomará o meu lugar nessa lição, e ela será ainda mais cruel, com certeza.
Mas não adianta. Estou com ressaca psicológica.
Ainda que eu saiba que no dia seguinte você não acorda com raiva de mim. Me dá um abraço tonto de sono, um beijo gostoso e fala "bom dia, mamãe". Mas em geral você pergunta: "Você ainda está brava comigo hoje? Eu não gosto quando você fica brava..."
Sempre respondo a sua pergunta assim: "Eu também não, filho. Odeio ficar brava com você."
Espero que agora, quando você estiver lendo essa carta, já tenha entendido o quanto me deprimia brigar com meu filhote... ainda que às vezes fosse preciso.
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