quarta-feira, 21 de abril de 2010
Você e os esportes
Você leva a bronca e quem fica deprimida sou eu...
Filhote,
De vez em quando você fica atacado. Acorda mal-humorado e passa o dia dando "patadas" nas pessoas, sabe? Trata mal seu pai, faz manha para se arrumar, tenta bater na professora, pede para comprar tudo o que vê pela frente como se fosse o filho mais mimado do mundo e logo depois esquece. Não se contenta com nada, não faz o favor nem de pegar um brinquedo no chão quando a gente pede, não como direito... até que eu me pergunto: “Nossa Senhora, o que aconteceu contigo hoje?”.
Sempre procuro uma razão. Mas nem tudo isso é para chamar nossa atenção, nem tudo tem sempre explicação.
E de vez em quando (menos do que eu deveria), decido que já chega, não pode ser tão folgado, tão mimado, tão mal-educado. E lá vem a bronca, o discurso, o castigo... Até que uma hora eu decido que você não está merecendo nem desenho nem história para dormir. Dou uma bronca "daquelas" e te mando para cama.
A paciência se esgotou. Mas aí você chora, pede desculpa, “por favor…por favor"… Você faz assim porque acha que chorando consegue tudo. E não tem mãe que não titubeie, o coração amolece de ver aquela carinha triste. Afinal, é só uma história, não custa nada…
Racionalmente as mães sabem que seus filhos são mesmo excelentes atores, e que está rolando uma manipulação básica. Você, por exemplo, sabe direitinho como conseguir quase tudo da sua mãe...
Só que eu me lembro que já é tarde, estou cansada, tenho mil outras coisas para fazer depois que você dormir (arrumar a casa, arrumar a cozinha, separar a roupa...). Não tem cabimento nenhum eu me sentir culpada por educar. Você mereceu o castigo, eu não fui injusta e você estaca impossível desde que acordou, ainda que agora esteja com carinha sedutora tentando me ganhar.
Controlo meus instintos e te mando dormir! (em nome da educação, das boas maneiras, dos limites e da minha sanidade). E chorando, triste comigo, você dorme.
A casa fica finalmente em silêncio... quieta demais. Passo no seu quarto, faço um carinho, beijo sua bochecha, afago mais um pouquinho, beijo de novo... sussuro “eu te amo, filhote”.
Saio do quarto com a história que ia contar entalada na garganta. Ando pela casa remoendo o dia. Escovo os dentes e esqueço de todas as tarefas ainda por fazer. Lamento o tempo “perdido” com broncas, quando tudo o que a gente queria era se divertir, passear, sorrir…
Mas crianças desobedecem, nos testam, e você fica se perguntando quantas broncas mais será obrigado a dar para que nossos pequenos entendam que a vida não é esse deleite ininterrupto de desejos preenchidos e sonhos realizados. Digo para mim mesma que, caso você não a ensine isso hoje, a vida tomará o meu lugar nessa lição, e ela será ainda mais cruel, com certeza.
Mas não adianta. Estou com ressaca psicológica.
Ainda que eu saiba que no dia seguinte você não acorda com raiva de mim. Me dá um abraço tonto de sono, um beijo gostoso e fala "bom dia, mamãe". Mas em geral você pergunta: "Você ainda está brava comigo hoje? Eu não gosto quando você fica brava..."
Sempre respondo a sua pergunta assim: "Eu também não, filho. Odeio ficar brava com você."
Espero que agora, quando você estiver lendo essa carta, já tenha entendido o quanto me deprimia brigar com meu filhote... ainda que às vezes fosse preciso.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Oi Filhão
Oi filhote.
Preciso te contar umas coisas, antes que eu esqueça (ou desista de escrever por aqui, o que é provável). Sempre sonhei em ser mãe, mas quando descobri que estava grávida, me apavorei por exatos 2,5 minutos. Depois, passei a querer que você chegasse logo. E você demorou, o danado! Não queria aparecer na ultrasonografia 4D só para eu ficar curiosa... se eu pedia para você se mexer, ficava paradinho na minha barriga. Muito implicante, isso sim!
Mas eu sonhava à beça contigo. Obviamente não me lembro da sua cara nos sonhos (sou muito ruim de lembrar sonhos), mas você estava sempre sorrindo. Até hoje sua risada é gostosa como no meu sonho.
Antes mesmo de você nascer eu já era descontrolada... comprava um monte de coisas para você. Ok... eu comprava também para mim. Até hoje eu faço isso: rapaz bacana que você é, nunca quer comprar a loja de brinquedos inteira, contenta-se com uma bola ou um livro. Eu, mãe-má-influência, fico insistindo para você levar o video-game bacana (provavelmente quando você ler essa carta não vai ter mais video-game no mundo... ou eles não vão se parecer em nada com os atuais, mas enfim). No final você sempre queria brincar comigo. :-) Tomara que ainda me convide, porque eu adoro inventar brincadeiras. Dizem por aí que eu sou boa nisso, viu? Em inventar moda, quero dizer (pelo menos é o que sua avó sempre diz).
Uma vez, decidi que a rede lá de casa era uma ponte. Eu tinha que atravessá-la. Caí e machuquei o queixo no muro. Não satisfeita, tentei novamente dali a uns 6 meses. Caí de novo... machuquei o queixo no mesmo lugar (até hoje quando você vê a sicatriz me pergunta o que é isso) e nem assim escapei da bronca. De outra vez resolvi que mercúrio (um remédio que não existe mais) devia ter gosto de suco de groselha, já que as cores eram parecidas. Bebi de um vidrinho que achei por ali... nem preciso dizer que sua avó quase morreu, eu tive que ir ao hospital e, obviamente, levei uma bronca.
Por falar nisso (broncas), tenho que te contar sobre dois assuntos, como prevenção. Primeiro, sobre meus pais. Antes de te conhecerem eles já te adoravam, sabe? Sempre tiveram jeito para avós, aqueles dois... e treinaram bastante com os sobrinhos. Trate bem eles, ok? Porque acho que eles morreriam ao primeiro sinal de malcriação sua. Ah! E você anda implicando com os seus outros avós - pais do seu pai. Não faça isso, porque eles são outros que vão ser, pelo resto da vida, apaixonados por você.
O outro assunto é menos mimoso. Pode se preparar, filhote: assim como levei muita bronca, você vai levar também! Se merecer, evidente. E às vezes porque a mamãe é meio descontrolada. Eu achava que não ia, porque o seu pai era muito calminho quando pequeno - obediente e bonzinho. Infelizmente para você (sob o ponto de vista do número de broncas que você vai tomar na vida), você resolveu puxar à sua mãe: agitada, teimosa e abusada. Olhando hoje para minha carinha ninguém diria, né? Eheheh
Aliás, é bom dar umas explicações sobre esse sujeito, o seu pai, agora – porque ele mesmo não vai fazer isso. É meio quietão, mais fechado, o seu pai. Desde que o conheci, ele parecia um mar de tranquilidade, sabe? Sempre tranqüilo, amável, simpático. E ele é assim mesmo! Nada o abala! Só a menção do seu nome, talvez... Por isso, se esforce para não abalá-lo, viu? Eu acho que eu já dou muito trabalho. Dois ele não aguenta.
Fico pensando: quando você chegou aqui, tudo ficou uma baderna. Não que a nossa casa fosse arrumadinha antes, mas porque sempre queremos fazer todos os seus gostos e te deixar confortável, e brincar de coisas legais e diferentes, e aí virou bagunça. Posso dizer uma coisa? Sei que às vezes eu até peço para você ver tv enquanto eu arrumo alguma coisa ou faço o jantar, mas prefiro quando você me ajuda, ou quando a gente joga bola ou brinca de pique.
Não fiquei brava quando você decidiu desenhar e carimbar as paredes. De vez em quando eu preciso te pegar no colo e explicar algumas coisas. Você sempre aprende. E às vezes me pede: "Explica de novo porque eu não entendi?". Acho o máximo, mas no geral gosto que você explore tudo por sua conta, quando quiser, do jeito que preferir. Umas horas te puxo pra dançar, cantar ou ler comigo. Não repara, eu me apego bem rápido às pessoas legais. Mesmo elas sendo pequenas. E me apeguei rapidinho à você.
Ah! Estamos há uma semana tentando fazer o diabo do feijão germinar numa plantinha (imagino que a essa altura você já tenha feito essa experiência na escola e ela tenha dado certo). Até agora está sendo um fracasso total.
Você tem muitos tios e tias (de verdade ou de consideração) malucos, que passam a semana maquinando um monte de artes em conjunto com você. Garantem que vão te “estragar” com doces e truques sujos. E te levar para noitadas quando você crescer. Coitados, não sabiam o baile que você já ia dar neles antes dos 4 anos! Há!
Eu ficava com medo que você gostasse mais deles do que de mim... Eu tento ser aquela mala responsável por te fazer comer, ter hora de dormir, não assistir tv o dia inteiro... Os outros iam parecer legais e divertidos, e eu seria a bruxa? Ah, não queria! Que bom que desde o primeiro momento você soube olhar pra mim e ver o quanto te amo.
Porque eu amo muito, viu? Esquece aquela besteira que disse no começo da cartinha, sobre eu ter tido 2,5 minutos de pânico quando soube da sua vinda... Levou míseros minutos pra eu perceber como a sua presença ia ser deliciosa e como a gente ia se divertir junto.
Não vai ser fácil sempre, um mar de rosas eterno, eu sei.
Quando você completar 11 anos e entrar naquela idade pentelha, por exemplo, talvez me odeie. Ontem mesmo reclamou que a comida estava velha e por isso não queria comer o jantar (folgado). Mas promete que vai passar? A fase da vergonha dos pais, e a fase dos pais que "enchem o saco"?
Porque você já deve saber desde agora que eu só quero o seu bem. Até parei de tomar café, porque explicaram que isso te faria mal! Pior que eu adoro café... Só que adoro muito mais você, viu, filhotinho?
Novembro chegou e passou rápido. Outros novembros passaram e quando eu vi você já não é mais o meu bebê. É um rapaz crescido e com vontade própria, embora ainda peça colo quando cai e machuca o joelho. Mas o próximo novembro já está aí, e daqui a pouco nem colo a mamãe vai mais poder dar.
Espero que você ainda apronte muito na vida, filhão. E a encare de peito aberto.
Um beijo! Te amo.